"Mas se me desmantelo ao acaso Logo me refaço ao sabor do vento que sopra a favor..."
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Água e Sal
Outra madrugada inteira de sono perdida ... Mais uma vez, como já virou tradição, as lágrimas a visitaram. Ela estava sozinha, podia chorar à vontade. Não queria ficar no quarto, sentia-se presa demais lá. Encheu uma garrafa com água e muito gelo. Direcionou-se à sala, dava pra ver melhor o céu dali. Quando, de forma inesperada, o telefone toca. Devia ser algo importante, afinal, o dia seguinte já estava começando. Resolveu esquecer um pouco da sua incontrolável dor no peito, enxugar as lágrimas e guardá-las para depois. Atendeu o telefone. Era uma amiga precisando desabafar, contar os problemas que estavam acontecendo, ouvir que o cara do qual ela gostava era um completo idiota por tratá-la tão mal e todo o mais. Ela não podia deixar de ajudar a sua amiga, mesmo com todo o seu sofrimento. Ouviu, ouviu, e, por fim, aconselhou. Passaram quase duas horas ao telefone. Longas horas com o choro preso. Terminou a ligação. O choro, então, se libertou de uma vez por todas. Ela não fez nada para controlá-lo, queria mesmo era deixá-lo escapar, para ver se ele não voltava mais, queria dar-lhe adeus. A cada soluçar, a cada lacrimejar, a cada olhar direcionado à janela, ela buscava ... onde foi que perdeu sua alegria? onde foi parar todo o seu riso e o brilho intenso dos seus olhos? Cansou de pensar. Sua cabeça já doía, e doía muito. O sono era realmente um companheiro distante. Decidiu escutar alguma música; I hurt myself today - Johnny Cash. E então, como se fosse uma das mais infelizes criaturas, quis afogar-se nas águas salinas de suas lágrimas. Repetiu a música pelo menos três vezes, só então decidiu que estava na hora de parar. O sono ainda não havia chegado. "Quem sabe um filme", pensou. Ela adorava filmes, principalmente os romances. Colocou um dos seus preferidos - "Casablanca". Um romance talvez já ultrapassado, mas, pra quem está com os dois pés na depressão, quase sem esperanças e tendo como único apego a sua fé, esse filme rende (e muitas) lágrimas, principalmente para os românticos incuráveis, apesar das desilusões. Chorou tanto, tanto essa noite.. seus olhos estavam inchados, vermelhos, como se todos os seus vasos estivessem dilatados. Seus problemas e dilemas eram tantos e tão intensos. Família, trabalho, namorado (ex?/futuro?/inexistente?/?) ... tudo ao mesmo tempo e de uma forma que só ela conseguia sentir. E, oh Deus, como ela sentia. Cada um de seus sentidos estava mais sensível do que nunca. O filme acabou, o sono já era um companheiro perto de chegar.. Pudera, o sol já estava prestes a nascer. Ela adormeceu com suas aflições e sua solidão desesperada ... Esqueceu suas dores ... Até a noite seguinte.
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